Parte I · A Sombra Antes da Luz

O Testemunho Profético

Antes de qualquer cruz ser erguida em Jerusalém, ela já fora desenhada na tinta dos profetas. O sofrimento e a glória do Messias estavam escritos, e Jesus leria a própria vida nas páginas que o anteviram.

Quando o Cristo ressuscitado caminhou com os discípulos a caminho de Emaús, não apelou primeiro às suas chagas, mas às Escrituras: "começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras" (Lucas 24:27). A morte e a ressurreição de Jesus não irromperam na história como surpresa, mas como cumprimento. O Antigo Testamento é a longa véspera de uma só manhã.

Três oráculos, escritos por mãos e em séculos distintos, formam a coluna profética que sustenta este estudo. O Salmo 16 promete que o Santo não verá corrupção. O Salmo 22 coloca nos lábios do Justo o grito do abandono e o cântico do triunfo. E Isaías, no quarto Cântico do Servo, descreve com precisão de testemunha ocular um homem ferido pelas nossas transgressões, escrito sete séculos antes do Calvário.

As Três Testemunhas

A profecia fala em três vozes.

  1. I

    Salmo 16:10 · A Incorrupção

    "Não deixarás a minha alma no sepulcro"

    Davi declara a confiança de que Deus não abandonaria o seu Santo à corrupção da morte. Pedro, em Pentecostes, e Paulo, em Antioquia, mostrarão que essas palavras não se cumpriram no túmulo de Davi, que ainda estava entre eles, mas "daquele a quem Deus ressuscitou" (Atos 2:31; 13:35). Aqui está a ressurreição prometida.

  2. II

    Salmo 22 · O Abandono e o Triunfo

    Do brado da cruz ao cântico da assembleia

    Um salmo que começa em trevas, "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?", e detalha mãos e pés traspassados, ossos contados, vestes repartidas por sorte. Mas no versículo 22 a maré vira: o sofredor sobrevive para louvar a Deus no meio da congregação. Sofrimento e ressurreição, num só poema.

  3. III

    Isaías 52:13–53:12 · O Servo Sofredor

    Ferido pelas nossas transgressões

    O coração teológico da profecia. O Servo é desprezado, cala-se diante dos algozes, é contado com os transgressores e sepultado com o rico. Mas a sua morte é substitutiva: "o castigo que nos traz a paz estava sobre ele". E o oráculo não termina na morte, "verá a sua posteridade, prolongará os seus dias": a ressurreição é prometida.

Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.

Isaías 53:5

Profecia e Cumprimento

O que foi escrito, e o que aconteceu na sexta-feira da Paixão.

Salmo 22:18 → João 19:24

Repartiram entre si as minhas vestes

"Repartem entre si as minhas vestes, e lançam sortes sobre a minha túnica." Junto à cruz, os soldados fazem exatamente isso, e João observa, maravilhado, que agiam para que "se cumprisse a Escritura".

Salmo 22:1 → Mateus 27:46

Deus meu, por que me desamparaste?

As primeiras palavras do salmo tornam-se o quarto brado de Jesus na cruz. Ao citar o versículo de abertura, ele invoca o salmo inteiro, incluindo a vitória que o coroa.

Isaías 53:9 → Mateus 27:57-60

Com o rico esteve na sua morte

O Servo, condenado entre criminosos, seria sepultado "com o rico". José de Arimateia, homem rico, cede o seu próprio túmulo novo, cumprindo um detalhe que nenhum conspirador poderia ter arranjado.

Salmo 16:10 → Atos 2:31

Não verás corrupção

Onde o salmo prometia que o Santo não veria a corrupção, Pedro proclama o desfecho: "prevendo isto, falou da ressurreição de Cristo". O sepulcro não reteve aquele que as Escrituras guardavam.

Convinha que o Cristo padecesse e ressuscitasse dentre os mortos.

Atos 17:3